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LORELT
Lontano Records Limited

Review of LNT136: Marlos Nobre Piano Music

Bolívar Torres, Estado de São Paulo (Portugues)

Marlos Nobre Piano Music PDF with photo

Sentimento Nobre - Rara em disco, a obra pianística de Marlos Nobre está agora em CD de Clélia Iruzun

“Desculpe a bagunça, mas casa de músico é assim”, diz Marlos Nobre, ao abrir a porta de seu apartamento em Laranjeiras, no Rio de Janeiro. Considerado por muitos o maior compositor brasileiro vivo, o pernambucano de 73 anos é um acumulador de objetos – alguns essenciais, outros nem tanto. Mas a maneira criativa como o caos acaba se harmonizando ao ambiente, com partituras e documentos preciosos da música brasileira convivendo pacificamente com moedas, pilhas e outras quinquilharias, é, de certa forma, a síntese da obra de Nobre. Espalhadas por todos os cantos, peças de arte nordestinas representam seu amor pelo folclore; arquivadas em caixas e estantes, sua correspondência com mestres como Arthur Rubinstein e Olivier Messiaen comprovam uma trajetória privilegiada; por fim, os dois pianos colocados em lugar de destaque na sala revelam a importância do instrumento no trabalho do compositor.

No piano, Marlos Nobre começou suas primeiras improvisações, que viriam a ser o motor de sua obra. Estranhamente, seu trabalho pianístico é ainda hoje raro em disco. A carioca Clélia Iruzun acaba de preencher esta lacuna com Marlos Nobre Piano Music. Recém-lançado pelo selo inglês Lorelt, traz algumas de suas principais músicas para o instrumento, como o Ciclo Nordestino e a Toccatina, Ponteio e Final.

“O piano cumpriu um papel central desde a minha infância”, afirma Nobre. “Quase não havia partituras em Pernambuco, e eu ficava horas improvisando frevos, maracatus, e outros temas populares que eu ouvia na rua. É claro que ninguém gostava, especialmente os professores do conservatório. Mas partes inteiras de minhas futuras composições surgiram desse exercício mental que eu fazia desde menino.”

Fixada há mais de 30 anos na Inglaterra, Clélia iniciou seus primeiros contatos com Nobre em 2001, quando estreou em Londres sua Sonata Breve. Desde então, iniciaram contatos para um disco dedicado exclusivamente à sua obra pianística – até hoje, apenas o pianista Roberto Szidon se havia aventurado nesta empreitada, em uma gravação de 1978 para a Deutsche Grammophon.

Sentada no sofá ao lado de Nobre, Clélia lembra a dificuldade em encarar as 10 obras selecionadas para a coletânea: “É uma música moderna e de difícil execução. Mas apesar de ser experimental, ela se comunica surpreendentemente com o público”. O compositor, conhecido por transitar entre o erudito e o popular, concorda: “Tive muitas brigas com Pierre Boulez e os serialistas, que achavam que ser comunicativo era um defeito. Por outro lado, lembro que Rubinstein me disse certa vez: ‘Sua música não é de gaveta. Sua música tem vida’. Para ele, era uma música que o intérprete tinha gosto de interpretar”.

Assim como os objetos espalhados pela casa, o disco é um resumo da obra de Nobre, abrangendo diferentes épocas criativas. Os Ciclos Nordestinos número 1 e 4, primeiro e último da série, são completamente opostos no que diz respeito à técnica. Escrito com intenções didáticas, o primeiro apresenta um grau de dificuldade limitado. Já o último – composto 11 anos mais tarde – exige um controle absoluto do intérprete ao incorporar ritmos como o frevo e o maracatu. “Para conseguir o impacto dos efeitos tem que estar muito seguro”, lembra Clélia. “A música é toda ornamentada, dá saltos para lá e para cá. O maracatu, por exemplo, é difícil por causa da síncope, a mão esquerda dá o tempo e também fica fora do tempo. Lembro que mostrei para uns amigos pianistas em Londres e eles acharam complicado demais!”

Para Nobre, o maior desafio é dar conta da polifonia. “Eu misturo ritmos diferentes, cada um deles com acentos deslocados. A percussão faz isso com cinco músicos, mas imagina quando se passa para o piano, onde tem um só? É preciso muito esforço para que a força dos ritmos não se perca.”

Antes de gravar, Clélia e Nobre tiveram longas conversas sobre cada faixa. Seguidamente, o compositor ajudava a intérprete com imagens de sua infância. Em Caboclinhos, do Ciclo no.4, ele recordou de quando “ouvia os indiozinhos passarem na rua com um arcozinho”. “Quando se toca, tem que entrar no mundo do compositor”, explica Clélia.

“Mas a música é tão boa que está acima dessas descrições.”

Também presente no disco, a Homenagem a Rubinstein foi composta em 1973, para o concurso Arthur Rubinstein realizado em Israel. Nobre teve a oportunidade de tocar a composição para o pianista polonês, um pouco antes de sua morte. “Estávamos em sua casa em Paris e ele pediu para que eu a tocasse. Eu estava nervoso e a primeira vez saiu horrível. Pedi um copo d’água e na segunda vez saiu melhor. Rubinstein disse que minha música vinha do coração e que era uma pena ele não ter dez anos a menos, para que pudesse tocá-la.”

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