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LORELT
Lontano Records Limited

Review of LNT124: Francisco Mignone - Piano Music

Clóvis Marques, O GLobo Newspaper (Portugues)

Francisco Mignone - Piano Music A imaginação fértil e a facilidade de composição de Francisco Mignone se refletem profusamente em sua obra para piano, que merece agora da pianista Clélia Iruzun uma coletânea abarcando todas as épocas e diferentes estilos da trajetória do compositor.

O piano de Mignone (1897-1986), popularizado especialmente com as Valsas de esquina compostas entre 1938 e 1943, tem sido muito bem contemplado em disco graças a Maria Josephina, sua viúva e grande intérprete. Ela vem lançando desde os anos 1970 uma série de gravações voltadas sobretudo para as séries de Valsas (também as Valsas-choro e as Valsas brasileiras), a música de inspiração infantil ou destinada às crianças e pequenas peças avulsas, além da música para dois pianos, que gravou com o próprio criador.

Clélia Iruzun também conviveu com Mignone e bebeu na fonte de sua inspiração e de seus ensinamentos. Do CD que ela está lançando pelo selo inglês Lorelt/Lontano Records constam as Cinco peças para piano a ela dedicadas por Mignone em 1976.

Divulgação

A pianista brasileira radicada em Londres é uma artista de recursos amplos e fina sensibilidade. A escolha do repertório do disco obedece nitidamente à intenção de abarcar, para um público também internacional, os diferentes recantos da arte pianística daquele que foi talvez o compositor brasileiro de maior intimidade com o teclado, no qual tocava (como suas mãos muito longas) e improvisava com facilidade lendária.

Ficaram de fora, ainda, as Sonatas. Mas a novidade em relação aos discos de Maria Josephina é que temos aqui várias peças que fogem ao repertório mais voltado para o estro urbano-popular das Valsas – embora estas estejam presentes também, com duas de cada uma das três séries.

Em seu magistral domínio técnico e expressivo, Clélia aborda as Valsas com uma arte mais inocente e límpida que Maria Josephina, cujas interpretações são arrebatadoramente românticas e envolventes. A viúva do compositor demonstra, em suas versões gravadas das Valsas, um gosto pelo rubato livre, as oscilações de tempo, a agógica imaginosa e o senso de aventura e risco que redunda num gesto instrumental e musical de grande sensualidade e sedução.

Veja-se por exemplo como ela confere à Valsa-choro nº 11, em sua magnífica gravação de 1976 transferida para CD em 1997, um fascinante clima de mistério, os olhos arregalados de espanto, na nostalgia doída de uma caixinha de música esquecida num canto da casa. Na mesma peça, Iruzun parece mais direta, embora nada fique a dever à poesia da partitura.

Nas seis Valsas por ela gravadas agora com perfeito idiomatismo, sejam elas melancólicas, brejeiras ou ritmadas, a comparação leva sempre no mesmo sentido de maior liberdade e imaginação em Maria Josephina, que no entanto nem sempre é tão senhora da clareza textual.

O que Clélia Iruzun oferece sobretudo em seu esplêndido disco – que será lançado com um recital na Sala Baden Powell, no Rio de Janeiro, no dia 2 de agosto – é a olhadela mais ampla na direção de outras formas na criação de Mignone para piano.

Temos, por um lado, algumas de suas peças no registro rítmico-africanizado: a célebre Congada (1921) extraída da ópera O Contratador de diamantes, a irresistível Dança do botocudo de 1941, com seu marcato rítmico não destituído de profundidade harmônica, o sincopado Cateretê  de 1931...

O requebrado bem brasileiro do ‘Allegro com umore’ da Sonatina nº 4 de 1949 também é capturado magnificamente por Clélia Iruzun, com uma sonoridade cheia e uma projeção franca mas nuançada.

O interesse e a curiosidade aumentam com as três séries de peças reunidas no disco, todas, que eu saiba, sem gravações disponíveis nos últimos lustros ou décadas: os Seis prelúdios de 1932, os Estudos transcendentais de 1931 e as Cinco peças para piano já mencionadas.

Nos dois primeiros casos, temos o Mignone menos conhecido das pesquisas de timbre e climas, de evocações lendárias ou históricas, com claras influências de Debussy (na fluidez e transparência do estudo No coqueiral, por exemplo) ou Mussorgsky (o estudo Velho tema).

Seja nesses ‘relatos’ que muitas vezes enveredam por sonoridades orquestrais; seja em episódios de delicadeza como os que contemplam citações de temas conhecidos do folclore brasileiro (Luar do sertão na Lenda sertaneja nº 2, magnificamente transfiguradora de um melancólico cheiro de terra; O cravo brigou com a rosa em Quando eu era pequenino, uma pecinha para aprendizes de 1932...); seja, ainda, no descritivismo de momentos como as Formiguinhas trabalhando, das Cinco peças, O gato e o rato, da mesma série, ou o Saci dos Estudos transcendentais, Clélia Iruzun dá mostra de uma variedade de recursos e um senso de adequação estilística que honram o compositor e deleitam a cada momento.

Sobretudo, ela mostra com sua coletânea que Mignone não foi apenas o compositor da facilidade improvisatória das Valsas, tendo percorrido formas mais abstratas e menos ‘populares’ com a mesma constância de inspiração, a mesma generosa variedade e o mesmo domínio das possibilidades e desafios da linguagem do piano.

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