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Lontano Records Limited

Review of LNT121: Luís Tinoco: Chamber Works

Maria Augusta Gonçalves, Jornal de Letras (Portugues)

Luís Tinoco: Chamber Works A essência das paisagens

Pense-se na música de Luís Tinoco como num quadro cheio de cor e movimento. A sua expressão gosta de desafios. Desenvolve conceitos e, se for preciso, subverte-os, perturba-os. Trabalha instrumentos come se encontrasse identidades. Os sons conversam, confrontam-se, expandem-se, contraem-se, sobrepõem-se, afastam-se. Se uma obra musical pudesse ter correspondência imediata numa pintura, seria com Luís Tinoco. Dir-se-ia, então, tratar-se de um dos melhores artistas plásticos contemporâneos. É, decerto, um dos mais importantes compositores surgidos na última década.

A música não é mais do que música. E isso é muito mais do que pode parecer. Na nova música, a percepção arrisca-se a não ser imediata. Luís Tinoco tem a seu favor um extraordinário bom gosto e uma generosidade imensa. A sua expressão adquire densidade e torna-se cada vez mais incisiva e apurada. É uma linguagem que procura a essência das imagens, a riqueza dos contrastes e abre espaços de liberdade. «Tenho sempre o cuidado de não impor nada pessoal», disse em entrevista ao JL, a 03 de Agosto de 2005. «Fico muito mais satisfeito se as pessoas construírem a sua própria memória».

Luís TinocoLuís Tinoco tem um novo disco. Reúne obras para agrupamentos de câmara, compostas entre 1998 e 2004, e foi gravado por iniciativa do Ensemble Lontano, da maestrina Odaline de la Martinez, fundadora da Orquestra de Câmara de Londres e a primeira mulher a assumir a regência nos Concertos Promenade. Pela primeira vez, é possível perceber o caminho do compositor, através de um conjunto substancial do obras, editadas em simultãneo. Todas elas tiveram apresentações públicas, em Portugal ou no estrangeiro, muitas foram premiadas. É o caso de Antípoda, composta em 2000 para o Fórum de Jovens Compositores da Unesco. O facto de a estreia ter ocorrido na Austrália, do outro lado do mundo, impôs a Luís Tinoco a necessidade de trabalhar duas parses contrastantes que se desenvolvem e se fundem num só gesto. A dualidade inerente à matéria viva, a conjugação de contrastes e as subtis progressões de cor que os sustentam, constituem factor determinante na sua obra.

Três Poemas do Oriente, vindos de Clepsydra, de Camilo Pessanha, são mais um exemplo. Exploram a musicalidade do poeta e o confronto aparente e vital do próprio texto: o dualismo Oriente-Ocidente, a papel fundamental da morte na natureza da vida, a passagem do tempo e o movimento da água. O simbolismo de Pessanha oferece tudo o que um compositor pode querer. Luís Tinoco aproveita cada instante, «tecendo» um processo de integração da voz no conjunto instrumental. Os três poemas foram estreados em Lisboa, em 2003, e são aqui cantados na versão francesa, pela soprano Eileen Hulse, aproveitando a tradução de Christine Pâris-Montech da obra do escritor.

Forgotten Places/Lugares Esquecidos, de 1998, apela a elementos de memória. O carácter define-se na exploração das texturas e na subtileza do «movimento musical» ao longo das quatro partes, que culmina no magnífico encontro do piano com as cordas, marcando distâncias e superando-as, quase em simultâneo. Tratamento semelhante percebe-se em Sundance Sequence, de 1999, embora se prefigure um caso à parte, muito distinto, para 11 instrumentos. À partida há uma divertida história de fuga e libertação, mas o humor é um caso sério. O «drama» permite premonições de perigo, assunção de risco, jogos de sombras, muita luz. Pelo meio, é possível exorcizar fantasmas e encontrar alguns dos mais fascinantes lugares da música contemporânea nos materiais de base. Por exemplo: Rituel, de Pierre Boulez, que «se funde» num «happy end» ao jeito de Hollywood. Tudo se processa com elegância, impondo os instrumentos de sopro e fazendo as cordas evoluir em seu redor.

Short Cuts e Invention on Landscape são as duas outras obras do CD. A primeira combina a ideia de atalho, a maneira mais râpida de ir de um lugar a outro, e a definição de secções precisas no discurso, considerando a possibilidade de levar o «gesto sonoro» ao essencial. Short Cuts foram compostos para saxofones e gravados pelo Quarteto Apollo, em 2004. Agora o movimento é ampliado a três clarinetes, saxofone tenor, dois vibrafones, marimba e piano. Invention on Landscape/Invenção sobre Paisagem, no fecho do CD, explora a noção de espaço, outro elemento determinante na obra do compositor. É uma noção sempre presente, marcada por um diálogo interno, uma errância e o caminho que se abre, por desígnio, permitindo a quem ouve desvendar a essência das suas próprias paisagens.

O CD foi editado no Reino Unido, em Novembro, e terá distribuição nacional na segunda semana de Março. O lançamento português coincide com a estreia de Contos Fantánticos, a última obra de Luís Tinoco — três andamentos sobre três histórias do «Monty Python» Terry Jones: A Estrada Rápida, Três Pingos de Chuva e Tomás e o Dinossauro (ed. Presença). A obra será interpretada pela Orquestra Metropolitana de Lisboa, sob a direcção de Cesário Costa, no Teatro de São Luiz, de 10 a 19 de Março. A primeira audição é dedicada a crianças das escolas, assim coma as apresentações dos dias 15 a 17. Aos fins-de-semana, os concertos são para meninos de todas as idades.

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